Somente
quando cruzou as pesadas portas do Salão Principal, Severo percebeu o
quanto estava morrendo de fome. Caminhou lentamente até a mesa da
Sonserina, seu olhar percorrendo disfarçadamente a mesa da Grifinória.
Logo a avistou. Lily estava sentada conversando animadamente com duas
amigas e, para a alegria de Snape, bem longe dos Marotos.
O garoto logo se sentou,
bem no centro da mesa, de modo que pudesse observá-la melhor. Mal notou
quando Avery e Mulciber chegaram, sentando-se um de cada lado seu.
– Bom dia, Snape. – sorriu Avery
– Ah, são vocês. – respondeu Severo sem entusiasmo, ainda fitando Lily.
Mulciber serviu-se de uma enorme porção de ovos mexidos.
– Ainda obcecado pela sangue-ruim? Achei que sua paixão fosse o livro de Artes das Trevas que lê toda noite. – disse rindo.
Severo derrubou metade do suco na camisa. Limpou-se rapidamente com um aceno da varinha.
–
Não estou obcecado, seu idiota. E acho melhor limpar sua boca antes de
falar da Lily. – disse Snape, fingindo brincar com a comida. Não
suportaria encará-los.
– Ok então. – falou Avery. – Mas, não acha
que existem garotas muito mais interessantes na Sonserina? Quero dizer,
não só mais bonitas. Mais inteligentes também.
– Até mais, caras.- disse Snape, botando um ponto final no assunto.
E
os dois rapazes se levantaram. Snape resolveu que era hora de ir
também. Afinal teria dois tempos de poções, sua aula favorita, não só
pelo grande talento herdado de sua mãe, mas principalmente por dividir a
classe com Lily.
– Sev, ei Sev!- gritou a ruiva no corredor, indo ao encontro do amigo.
–
Olá Lily. – disse sorrindo. Adorava quando ela o chamava por aquele
apelido. Isso o fazia lembrar da promessa que tinham feito há tantos
anos.
– Você conseguiu fazer a redação do professor Slughorn? Aquela sobre Amortentia?
– Sim. Por quê? Teve dificuldade? – perguntou Snape surpreso. Lily era tão boa em poções quanto ele, talvez melhor.
A garota riu.
–
Não, claro que não. É que eu achei uma poção muitíssimo interessante.
Sabe, os efeitos e perigos que pode causar. Você sabia, ela tem...
–
Um cheiro diferente para cada pessoa? É, acho que já ouvi falar. –
elecompletou brincando. Não era muito de brincar, mas a amiga tinha o
dom de fazê-lo sorrir.
Lily riu novamente.
– Ah, claro. Desculpe, mestre das poções. – disse sarcasticamente. – Será que vamos prepará-la hoje?
– Talvez. – disse Snape, entrando na sala de aula.
Os dois se sentaram em sua mesa habitual. Afinal sempre faziam par nas aulas de poções.
Snape acabara de tirar sua redação da mochila quando sentiu algo molhado respingar em suas vestes e encharcar todo o pergaminho.
– Opa, foi mal Ranhoso.
Tiago Potter passou rindo pela mesa, seguido por Black, Lupin e Pettigrew.
– Você é ridículo, Potter. – ralhou Lily.
– Esquece. – disse Snape, já limpando as vestes com sua varinha.
Nesse
exato momento, o Prof. Slughorn adentrava a sala, sorrindo com seus
bigodes, o que o tornava cada vez mais parecido com um enorme leão
marinho.
– Muito bem turma, atenção. Apesar de termos dois tempos
hoje, nossa aula será demasiado rápida. Por isso, peço que colaborem. –
pediu o professor, deixando a classe em total silêncio.
Horácio sentou em sua mesa.
–
Quero que me entreguem organizadamente suas redações, e espero que
todos tenham feito dessa vez – pediu, encarando a mesa de Potter e Black
–, para que possamos, nos primeiros 15 minutos de aula, discutir sobre a
poção de hoje, a Amortentia.
Snape piscou para Lily, que sussurrou em seu ouvido:
– Eu não disse?
O
garoto sentiu um frio correr-lhe a espinha. Os alunos se enfileiraram
para entregar suas redações ao professor, e logo voltaram a sua posição
inicial.
– Ótimo. Agora vamos ver quem realmente fez o trabalho. Sr. Potter, poderia me dizer as propriedades da Amortentia?
A
classe ficou em silêncio. Potter corou. Olhou para o lado, pedindo
ajuda a Sirius, que apenas balançou a cabeça. Por fim disse:
– Eu não sei, senhor.
–
É claro que não sabe. – disse Slughorn. – E vai continuar não sabendo
se não parar de copiar as lições do Sr. Lupin. Menos 5 pontos para a
Grifinória. Sorte que tem a Srta. Evans para poder recuperá-los.
Incentivada pelo professor, Lily disse:
–
A Amortentia é a poção do amor mais poderosa que existe. Tem como
principais características o brilho perolado, o vapor liberado em forma
de espirais e seu cheiro distinto que varia de pessoa para pessoa,
dependendo do que mais lhe atrai. – disse ela num tom superior. Essa era
uma das maiores semelhanças entre ela e Severo. O prazer em desprezar
Potter.
– Excelente, 10 pontos para a Grifinória. – exclamou o
professor. – A Amortentia na realidade não gera o amor, é claro. É
impossível produzir ou imitar o amor. Não, a poção apenas causa uma
forte paixonite ou obsessão. Iremos prepará-la hoje. Juntem-se em duplas
e abram na página 16 de seus livros.
O professor observou seus alunos se juntarem e disse:
–
Severo, Lily. Adoro ver meus melhores preparadores de poções
trabalhando juntos, mas, bem, essa é uma poção complicada... Por que não
experimentam trabalhar com pessoas diferentes, que estejam com
dificuldade?- sugeriu ele por fim.
Snape olhou para Lily, que assentiu. O professor abriu um largo sorriso.
–
Muito bem, sabia que iriam entender. Lily, junte-se a Potter, quem sabe
você consiga enfiar algo na cabeça dele durante essa aula. E você
Severo, por que não se junta a Narcisa Black? Ela veio me dizer que
estava com dificuldade no começo da aula. – explicou baixinho.
Severo
olhou para a mesa de trás. Uma garota loira acenava freneticamente para
ele, sorrindo de orelha a orelha. Lily virou-se também. Sua expressão
deixava bem claro que não tinha gostado nada da escolha do professor.
Sem
olhar para o amigo, murmurou um "boa sorte" e seguiu direto para a mesa
de Potter e Black. Snape acenou com a cabeça e se dirigiu à mesa da
colega sonserina.
Ao chegar ao local solicitado pelo professor disse formalmente:
– Olá.
A garota abriu um sorriso ainda maior. Jogou os cabelos loiros para trás e logo respondeu:
– Oi Severo, tudo bem? Posso te chamar de Severo não é?
– Pode.
Snape
não estava a fim de conversa. Estava irritado com Slughorn por tê-lo
separado de Lily, e ainda mais irritado por colocar "sua garota" ao lado
de Potter.
Começou a preparar o caldeirão quando ouviu novamente a voz estridente da garota.
– É engraçado, não é? Estamos na mesma casa e no mesmo ano, mas nunca trocamos nem uma palavra.
– Engraçadíssimo. – murmurou Snape.
A loira continuou:
– Chateado por ter sido separado da Evans?
Snape não respondeu. Em vez disso pediu indiferente:
–
Poderia, por favor, picar a pele da ararambóia em pedaços bem
pequenos enquanto eu aqueço o caldeirão? – não haviam se passado nem 10
minutos e aquela garota já o estava tirando do sério.
Olhou para o
lado. Tiago e Lily conversavam, enquanto o grifinório balançava os
cabelos compulsivamente numa tentativa idiota de se exibir. Resolveu não
pensar nisso por um tempo. "não acha que existem garotas muito mais interessantes na Sonserina?".
As palavras de Avery ecoaram em sua cabeça.
Olhou para Narcisa. Reparou
em seu logos cabelos dourados e seus olhos azuis cintilantes. "Ela é
realmente bonita."Porém, nunca seria mais bela que sua ruivinha. Mas se
Lily estava disposta a interagir com outros garotos de sua própria casa,
o que o impedia de fazer o mesmo?
– Severo, terminei.
Snape
despertou rapidamente de seus devaneios e viu Narcisa lhe empurrando
uma tábua cheia de pele de ararambóia picada. Durante mais ou menos uma
hora os dois trabalharam juntos, sem trocar nenhuma palavra. Já se
aproximando do final da aula, Narcisa o chamou novamente:
– Severo, eu estou com muita dificuldade em poções e receio não conseguir passar nesse N.O.M. Você poderia me ajudar?
Snape viu os olhinhos da garota brilhando de esperança.
– Acho que não tem problema. – disse por fim.
Narcisa estava prestes a agradecer quando o professor gritou.
–
Merlin, olha a hora! Vamos pessoal, encham um frasquinho com a poção e
me entreguem. – disse agitando as mãos. – Rápido, rápido, não quero que
os alunos da Grifinória se atrasem de novo ou Minerva vai arrumar um
jeito de me colocar em detenção.- disse brincando.
Severo se levantou:
– Pode deixar, eu entrego. Hoje à noite, então? Depois do jantar, na biblioteca?
A loira concordou e o garoto levou o frasco até Slughorn.
Quando Snape já estava próximo à mesa do professor,Narcisa tirou um frasco bem pequeno de suas vestes e o encheu de Amortentia.
"Pode esperar Severo, pode esperar."
Ao sair das masmorras, Snape se deparou com Lily, que parecia meio emburrada.
–
Ele é mais idiota do que eu pensava. Não sabia nem o que era uma
ararambóia! E ainda ficou fazendo piadinhas com Black enquanto eu
trabalhava sozinha na poção inteira. – reclamou.
– E você esperava algo melhor? É Potter! – disse Snape rindo.
– Pelo jeito a sua aula foi bem divertida, não é mesmo?
Severo
notou uma expressão nos olhos da ruiva que ainda não conhecia. Quando
estava prestes a responder, um borrão dourado passou diretamente por
seus olhos e ele sentiu um beijo estalado na bochecha esquerda.
– Obrigada mesmo, Sevinho. Te vejo hoje à noite, então. – disse Narcisa, que desapareceu quase tão rápido quanto apareceu.
– SEVINHO? – disse Lily incrédula. – Inacreditável.
A garota também saiu andando, sem dizer mais nenhuma palavra.
Severo ficou parado no mesmo lugar, tentando absorver tudo o que acabara de lhe acontecer.